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A inveja, o invejoso e o invejado

Atualizado: 27 de jun. de 2022

Por Herbert Bandini

Por diversas vezes, um amigo próximo, sempre que nos encontrávamos, queixava-se do comportamento agressivo, às vezes dissimulado, de alguns colegas de trabalho. Do nada, alguém lhe tacava uma daquelas palavras ou frases, sabe, que a gente, meio atônito, pergunta para si mesmo: "Num entendi… O que fulano quis mesmo dizer com isso?!", forçando-nos a parar e a pensar sobre o seu real significado.


"Inveja!", disse-lhe eu intempestivamente…, e cá fiquei a imaginar o real sentido daquilo que acabara de falar.


Há certas palavras que são elásticas: a inveja é uma delas; felicidade, outra dessas. De tanto a gente imaginar o que significam - cada um de nós, a seu modo, tentando conceituá-las - elas crescem igualzinho a bexiga de aniversário. Inflam tanto que às vezes perdem seus sentidos e acabam por não nos dizer nem acrescentar nada.


Guardei comigo a palavra dita e as reclamações de meu amigo. Ruminei! Assim fiquei pelejando por um bom tempo talvez em razão do estrago visível que esses comentários advindos do nada lhe causaram e que, por ser meu próximo, também me infligiram certo desconforto. Suas reclamações pontuais despertaram em mim tenebrosas lembranças de uma época em que fui vítima de pessoas invejosas que tentaram deixar, sem sucesso, muito mais do que marcas profundas em minha alma. A vida naqueles idos não foi fácil, mas hoje não guardo sequer um naco acinzentado daqueles tempos.


Inveja é mesmo uma peste! Dizem que causa mais estragos aos invejosos do que aos invejados. - Sei não, viu?! O invejoso provoca tanto desconforto, que chega mesmo a alterar o curso de numerosas vidas alheias. Que abalo maior alguém poderá sofrer do que ter o rumo de sua existência avariado? Nenhum! Se o invejoso padecer de um mal maior do que esse, decerto dará um passo para além da fronteira da sanidade e será considerado um louco, necessitando mesmo ser emocionalmente tratado.


Desde os primórdios, a inveja faceiramente vagueia mundo afora. Francis Bacon, filósofo, ensaísta e político inglês, falecido em meados do século XVII, em um belíssimo ensaio, diz-nos que (…) a inveja é uma paixão calaceira, isto é, passeia pelas ruas e não fica em casa. Googlando aqui, descobri que calaceiro é sinônimo de preguiçoso, malandro, vadio. Talvez seja mesmo por essa razão que causa tanto estrago na alma do infeliz que a carrega: além de passional, ela é malandra, esperta, vadia…


Considerada um dos sete pecados capitais, a inveja é o segundo na lista classificatória decrescente de São Tomás de Aquino, sucedendo a vaidade, primeiríssima no ranking dos que mais ofendem o amor (tá aí outra coisa que descobri: os pecados, sobretudo os capitais, mortificam o amor). Originária de invidia (latim), a palavra, em seus primórdios, significava “olhar torto”, no sentido de “lançar mau olhado sobre”. É uma malquerença, uma malevolência (misericórdia, que todos os santos e anjos nos protejam de, nalgum dia e nalgum lugar, assumirmos a condição de invejados ou de invejosos, porque não há, para nenhum de nós, garantias de que jamais representaremos o triste papel ora de um ou de outro, quando não de ambos a um só tempo).


Na literatura e na filosofia, encontramos dezenas de passagens que lhe faz menção. Embora andarilha e perigosamente fagueira, ela não costuma ir muito longe, preferindo vagar pela vizinhança e se alojar entre os que partilham uma profissão ou mantém assíduo convívio social ou pessoal. Dito de outra forma, o ser possuído pela inveja está entre nós, compartilha os mesmos ambientes que corriqueiramente frequentamos, mostra-se muitas vezes solícito, amável, prestativo e, não raras as vezes, apresenta-se como nosso amigo.


É a proximidade – e não a diferença de classes ou o status social de cada um – que desperta, no comportamento das pessoas com as quais convivemos, essa qualidade de malquerença da inveja. O meu próximo é um perigo! David Hume, historiador, filósofo e ensaísta britânico do século XVIII, alerta-nos para isso. Segundo ele, (…) um soldado raso não nutre pelo seu general inveja comparável à que poderá sentir pelo seu sargento ou por um cabo; nem um escritor eminente encontrará tanta inveja por banda dos escritores vulgares como nos autores que dele mais se aproximam.


Num é que é a mais pura verdade! Quantos homens e mulheres de uma mesma posição socioeconômica, gozando dos privilégios que uma classe abastada pode lhes conferir, não sentem inveja um do outro sem motivo aparente? Quantos miseráveis não desejam a migalha do outro, que também é tão ou mais miserável do que ele? Quantos irmãos, filhos dos mesmos pais, que tiveram educação e tratamentos iguais, não cobiçam a condição de ser do seu outro, e assim o fazem de graça? Passaríamos dias enumerando casos semelhantes.


Conforme dito, o invejoso é nosso conhecido. Habita tanto a choupana quanto o palácio. Ele é doméstico. Ele é próximo. Padece de uma paixão andarilha e malsã que, como bem salientou Francis Bacon, passeia desocupadamente pelas ruas à procura de algo que lhe sacie a sede implacável sabe-se lá de quê. O objeto de sua cobiça está circunscrito a um território que lhe é familiar e que, por motivos que se desconhecem, acredita ter-lhe sido surrupiado. Para tê-lo de volta, o possuído pela inveja se servirá das mais escabrosas artimanhas e as executará, magistralmente, a um ritmo frenético que beira a loucura.


Muito há o que se considerar sobre a inveja, o invejoso e o invejado. Como se trata de uma palavra elástica a nomear um comportamento de igual modo elástico, é difícil mesmo conhecer todas as suas nuances, qualidades e extensões. O de certo é que ela está presente, desde seus primórdios, em toda a história do homem e que, apesar de apresentar-se diabólica, é humana, demasiadamente humana. Dito isso, cuidemos de olhar em nosso entorno com o fito de saber com quantos sorrisos se faz um amigo. Tratemos todos com respeito e dignidade, inclusive os invejosos, e sigamos adiante, perdoando sempre, porque, no virar da próxima esquina, quem sabe se não estaremos nós, sem nos apercebermos, maldizendo a vida alheia.


Essa foi a reflexão que eu e meu amigo fizemos sobre aqueles que nos invejam e aquilo que invejamos. Aprendemos, a duras penas, identificar os que carregam consigo a maldita malquerença e a deixá-los vaguear rua afora, bem distantes de nossas casas, mas sem maldizê-los. Se esse é também um de seus problemas, faça conforme fizemos. A vida não será um mar de rosas, mas, por certo, muito mudará para melhor.

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