O Terço e o Rosário

Atualizado: 27 de jun.

É certo que o Rosário faz parte do quotidiano de todo fiel católico, mas quantos, entre estes, conseguiriam defini-lo em termos formais?

 

Por Marcus Salomão

Revisado por Alceu Takao, Inda Souza, Marcus Salomão, Mariana Lessa, Mariana Schurr, Ruth Souza.

É certo que o Rosário faz parte do quotidiano de todo fiel católico, mas quantos, entre estes, conseguiriam defini-lo em termos formais? E se, porventura, um dia, fossem questionados acerca da diferença entre o Terço e o Rosário, quantos seriam aqueles capazes de distingui-los, ou melhor, quantos seriam aqueles surpreendidos ao descobrir haver tal distinção?


Certamente, se se tratando de clérigos, não seria equivocado presumir que esses questionamentos se lhes afigurariam deveras incomuns; contudo, numa reunião com fiéis católicos, pude eu próprio confirmar que, mesmo entre os seus mais diligentes, a dúvida quanto a distinção entre o Terço e o Rosário existe, e é, talvez, muito mais comum do que poderia supor a Igreja. Assim, tendo sido provocado pela hesitação desses bons fiéis quanto a esta dúvida, senti-me impelido a clarificá-la para dela vê-los livres e esclarecidos.


Comecemos, portanto, pela definição do Rosário, imprescindível para a compressão do Terço, posto que é a partir daquele que este nos chega.


O Rosário é, de maneira sucinta e objetiva, um ato devocional mariano que consiste na recitação sequencial das orações ave-maria e pai-nosso e na meditação intercalada de Mistérios, isto é, na contemplação de passagens da vida de Cristo. Esse ato se vale de uma corrente que leva o mesmo nome, composta de contas ou nós. Também nisso consiste o Terço, ou seja, trata-se, objetivamente, do mesmo ato devocional, porém, em sua forma reduzida, o que equivale a um terço do Rosário.


Vejamos, pois, os pormenores do Rosário e, concomitantemente, os do Terço.

 

A devoção mariana ontem e hoje


Pouco depois da virada do século XX, o Rosário era dividido em três séries de mistérios: gozosos, dolorosos e gloriosos. Esses, por sua vez, eram (e ainda são) separados por cinquenta ave-marias e cinco pai-nossos, orações que, juntas, perfaziam cento e cinquenta ave-marias e quinze pai-nossos para assim formar o Rosário em sua forma completa.


No entanto, no ano de 2002, por meio da carta apostólica Rosarium Virginis Marie, o Papa São João Paulo II insere uma nova série de mistérios designada luminosos, fazendo com que, em síntese, a prática devocional mariana, em sua forma completa, passasse a ter quatro séries de mistérios e resultasse em mais cinquenta ave-marias e cinco pai-nossos, totalizando, dessa forma, duzentas ave-marias e vinte pai-nossos respectivamente.


Não obstante, apesar do acréscimo dos mistérios luminosos, a designação Terço manteve-se inalterada, mesmo que ele tenha deixado de ser um terço e passado a compreender um quarto do Rosário.

 

O mistério dos mistérios


Na reunião em que estive com os fiéis católicos, ficou manifesto que um dos maiores mistérios que circunda a distinção entre Terço e Rosário reside no exercício da contemplação de seus mistérios. Isto porque, como sabemos, a devoção mariana, em sua forma completa, é composta de quatro deles, e, assim sendo, sobrevem a muitos fiéis o questionamento de como é possível, no Terço, contemplá-los todos, posto que esse representa a forma reduzida do Rosário.


Felizmente, essa dúvida é muito menos um mistério do que uma incerteza inofensiva, mas que, de todo modo, pode vir a prejudicar a prática devocional se não sanada. Para tanto, voltemos à objetividade à qual nos servimos para descrever o Rosário.


O Rosário compreende quatro grupos de mistérios. Retomemo-los para fins elucidativos: gozosos, dolorosos, gloriosos e luminosos. Esses são assim classificados por remeterem, cada qual, a um conjunto de diferentes passagens da vida de Cristo, cinco delas para ser mais preciso. Isso é dizer que cada grupo de mistérios compreende cinco mistérios, como ilustrado no esquema que preparamos abaixo:


Os quatro grupos de mistérios

Assim sendo, de maneira breve, reza o Rosário em sua forma completa aquele que reza as quatro séries de mistérios, o que equivale a quatro Terços, ou seja, um total de vinte mistérios da vida de Cristo. Consequentemente, reza o Terço aquele que reza um quarto do Rosário, o que representa apenas uma série de mistérios, isto é, cinco mistérios da vida de Cristo. Em suma, aquele que rezar as cinquenta ave-marias e os cinco pai-nossos e contemplar os cinco mistérios do grupo dos gozosos, por exemplo, terá rezado o Terço. Para ilustrar, vejamos o esquema abaixo:


O Terço e o Rosário
 

Finalmente, tendo sido decifrado o mistério dos mistérios, encerremos com uma resposta síntese à pergunta que abriu a nossa exposição: como, em termos formais, se distingue o Terço e o Rosário?


Em conformidade com o que nos demos a conhecer, podemos replicar sem titubear: o Rosário e o Terço consistem ambos em uma prática devocional mariana comum: o primeiro, enquadra duzentas ave-marias, vinte pai-nossos e quatro grupos de mistérios, contendo, em si, vinte passagens da vida de Cristo; já o segundo, abrange cinquenta ave-marias e cinco pai-nossos e um grupo de mistérios, contendo, em si, cinco passagens da vida de Nosso Senhor.