Série Arquitetura Gótica: igrejas (Parte I)

A unidade do edifício religioso de estilo Gótico, e seus revival’s, encontra-se, arquitetonicamente falando, na altura máxima da igreja!

 

Por Leila Regina Pereira dos Santos

Texto inicialmente publicado em: https://ensaioscultura.com.br/serie-arquitetura-gotica-igrejas-parte-i/

A unidade do edifício religioso de estilo Gótico, e seus revival’s, encontra-se, arquitetonicamente falando, na altura máxima da igreja! Algo perceptível em sua forma compositiva, que propõe, numa clara intenção, conduzir nosso olhar ao ponto de encontro que acolhe a convergência de todas as arestas, internas e externas, da obra arquitetônica. A igreja Gótica é a arte cujo fundamento estético, e portanto também a apreciação final – a contemplação -, projeta-se no resultado gerado pela verticalidade da obra, que conforma sua altura máxima em ponto final da direção visível.


Essa é uma característica que diferencia a composição da igreja Gótica de muitas outras edificações na história da arquitetura. Sua preponderante verticalidade, expressa em espaços religiosos, apenas encontra paralelo em construções realizadas num tempo muito posterior ao daquela, mais precisamente no século XIX, com exemplares do neogótico. Mas aspectos como a tecnologia utilizada nesse, a organização do corpo dos executores da obra, e a cultura que o sedimentou, distanciam as semelhanças entre as Góticas e as Neogóticas, tanto quanto emergem as diferenças. Além do revival do século XIX, há um exemplo iniciado nesse período e que foi retomado em distintos momentos do século XX, cuja obra ainda está em construção: o Templo Expiatório da Sagrada Família, de Antoni Gaudí. Sua altura, cuja finalização está prevista para 2026, é bem significativa – a terminação da cúpula central dista aproximadamente 170 m do piso –, mas refere-se parcialmente, como bem podemos de modo empírico saber, àquela intenção que encontramos na arquitetura gótica quando de sua busca por uma extensa verticalidade.


Milan Cathedral from Piazza del Duomo. Foto: Wikipedia

Bem, vamos a outras considerações pois o objetivo não é fazermos, tão somente, ou preferencialmente, uma análise das estruturas da igreja Gótica, dos elementos que a constituem, e assim uma parcialização de seu conjunto edificado, para a partir dessa demonstrar as relações matematizáveis entre as diversas partes. Não que essa não contribua para captarmos pela lógica matemática da construção a sua fisicalidade, mas por vezes a retomaremos quando o propósito for a intelecção sobre o tema. Agora o pretendido é contribuir com a apreensão do essencial da obra de arte, que segundo a definição do filósofo espanhol Xavier Zubiri, em Sobre el Sentimiento y la Volición, consiste na “expresión de la actualidad de la realidade en mí como realidad […], una expresión de la manera como en esa vida se hace actual lo real; es una expresión de lo actual de la realidade misma.” (ZUBIRI, p.350)


Então, além de termos em mente o destaque da busca de uma altura máxima na proposta arquitetônica da Igreja Gótica, façamos um percurso similar em relação ao principal material da edificação da igreja, a pedra, para assim somarmos os dois: altura e pedra. A primeira característica responde ao formato arquitetônico, e a segunda, ao material. Esse traduz claramente o aspecto concreto da obra, e certamente esteve dentre os maiores desafios existentes para a consolidação dessa arquitetura. A altura perseguida que nunca foi modesta, e os recursos tecnológicos que se restringiam ao domínio manual dos artesãos somado ao conhecimento empírico dos mestres de obra, à respeito da física da construção, tornam ainda mais intrigante essa arquitetura, quando observamos que o material principal da obra foi a pedra.


Sainte Chapelle Interior Stained Glass. Foto: Wikipedia

Para além de mero recurso estrutural – possível pela rigidez e estabilidade da constituição do material – que expressa e cumpre a perenidade almejada para essa edificação, a pedra revela-nos muito do modo como os artesãos enfrentaram-se a ela. Nota-se que a acolheram com refinado cuidado e dedicação, tal como se o material em suas mãos fosse algo tão frágil como uma flor. Apesar da concretude da pedra, o cuidado daquelas mãos artesãs com esse material de trabalho resultou em elaborar delicadíssimas estruturas com aspecto rendado, para comporem inúmeras aberturas para a igreja. Em especial aquela exposta no centro de suas fachadas, aproximadamente na terça parte superior da altura dessas, uma abertura que nos remete outra vez à ideia da delicadeza da flor, nesse caso à de uma rosa, que em sua complexidade projetada no plano da fachada compõe o que conhecemos, então, como rosácea.


A pedra, num encaixe entre suas diversas parcelas esculpidas, pequenas ou grandes, serviu à tradução direta da fórmula almejada, harmônica e proporcionada, em que combina a expressão da rigidez e peso desse material, que é a perenidade, com a expressão da leveza e claridade das aberturas da composição.


Torre de igreja Rosácea Igreja da Consolação. Foto: pixabay

Nesse sentido a igreja gótica é um conjunto estrutural em que todas as suas partes encontram-se encaixadas, em pontos espaciais precisamente definidos, segundo o peso estabelecido pelo tamanho e formato de cada uma delas, e nas quais se faz possível sustentar, no resultado final, o lugar espacial da mais elevada altura concebida para esse conjunto. Esse lugar está num exato limite, em que a ação da gravidade encontra a nulidade de sua força sobre aquele elemento estrutural mais elevado do conjunto, e que é o fechamento final da cúpula da igreja. O elemento, que algumas vezes aparece num vazado constituído de pequenas partes de pedra, tal como a rosácea, chama-se coruchéu, e é a flor em forma cônica que por vezes encontra-se na terminação de uma cúpula. O coruchéu, diretamente posto no ponto mais elevado, parece em suspensão e desprendido de sua base com a intensidade da luz solar.


Assim, o movimento para o alto, expresso na perspectiva vertical dessa composição, mostra-se contrário à direção exercida por aquela que é literalmente a mais aterradora das forças, a força da gravidade. E é nesse intrincado de forças que a perspectiva vertical, definida pelos mais robustos pilares da história da arquitetura ocidental, expressa a possibilidade de um encontro com a esfera celestial.


E tudo isso como meras notas[1] de manifestação de uma realidade: A realidade da ordem, existente e intrínseca a todas as notas em manifestação. Neste caso, notas em pedra.